Estudos no Evangelho de João

Permanecer na Videira

Sobre o que significa dar fruto sem forçar a colheita — e porque é que permanecer, muitas vezes, é a parte mais difícil da fé.

9 de março de 20267 min de leitura

Há uma diferença simples e exigente entre produzir e permanecer. A primeira exige esforço; a segunda exige confiança. E é sobre essa segunda que Jesus fala, numa das imagens mais silenciosas do seu ensino: a videira e os ramos.

Não há nada de espetacular numa vara presa ao tronco. Não faz nada, à vista desarmada. Não se esforça por crescer, não negoceia a sua posição, não tenta produzir fruto por conta própria. A única coisa que faz — e é a única coisa pedida — é permanecer.

“Eu sou a videira, vós as varas; quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.”

João 15:5

É fácil ler isto como um convite à passividade, mas é o contrário. Permanecer é uma decisão diária, repetida, muitas vezes invisível: voltar à oração quando a rotina puxa para outro lado, confiar quando os resultados não aparecem, manter-se ligado à fonte mesmo quando o fruto parece distante.

O que a poda ensina

Alguns versículos antes, Jesus fala de um Pai que poda os ramos — inclusive os que já dão fruto. Não é castigo; é cuidado. Há coisas boas na nossa vida que, deixadas sem poda, acabam por roubar a seiva às coisas essenciais. A poda dói porque corta algo real, não algo inútil.

A fé madura não é a ausência de corte, é a confiança de que quem corta é o mesmo que planta.

Talvez por isso esta parábola seja tão difícil de aceitar quando a vida atravessa uma estação de perda. Queremos crer que dar fruto é sinónimo de crescer sempre, de nunca ser podado. Mas o texto sugere outra ordem: primeiro permanecer, depois — no tempo certo, não no nosso — dar fruto.

Permanecer é o trabalho

Se há um convite prático nesta passagem, é este: parar de medir a fé pelo que se produz e começar a medi-la pelo que permanece ligado. Uma vida que permanece na Palavra, na oração, na comunidade — mesmo em silêncio, mesmo sem fruto visível — está, ainda assim, a fazer exatamente aquilo que lhe foi pedido.

E talvez seja esse o descanso mais profundo desta imagem: o fruto não depende do ramo. Depende da videira. Ao ramo pede-se apenas uma coisa — que fique.

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